domingo, 6 de abril de 2014

Cine Doroteu - Noé

NOÉ * * *
[Noah, EUA, 2014]
Drama
138 min

O protagonista retratado por Darren Aronofsky fica tão obcecado com sua missão divina que por pouco não se torna o vilão da história. De longe, é a parte mais interessante da ambiciosa narrativa bíblica do cineasta por trás de obras perturbadoras como “Réquiem para um Sonho” [2000] e “Cisne Negro” [2010]. Pena que o filme não se concentre mais nesse viés da interpretação da mensagem enviada a Noé, o “homem virtuoso, inocente entre o povo de seu tempo”. Tão inocente assim? A perspectiva judaica do roteiro de Aronofsky e Ari Handel põe essa pureza em xeque, afinal ele preteriu o resto da humanidade em favor de sua família.

É preciso ter muito sangue no olho para encarar um trabalho desses, mesmo vindo do Deus vingativo do Velho Testamento. Não é à toa que o personagem surte após o dilúvio, com uma compreensão, digamos, mais extrema da coisa toda. Se o filme só fosse isso, teria chance de ser mais uma pérola do cultuado diretor, ao invés de um ousadíssimo blockbuster hollywoodiano com fortes questões a provocar acerca da própria natureza humana. Provocações vazias? Não, mas que mereciam melhor atenção e profundidade ao invés de serem apenas um aperitivo bem vindo à experiência.

De mérito, passa longe de ser um filme cansativo. Na verdade, possui mais ação do que poderíamos esperar de uma produção do gênero – e Aronofsky ainda encontra espaço para suas hip-hop montages. Em contrapartida, o tempo diegético do filme soa irregular, apressado [diferente de urgente], quando poderia ter desenvolvido com mais inteligência a dinâmica entre os personagens. Ou pelo menos alguns deles. Certas cenas parecem forçadas, como se tivessem somente o intuito de aumentar o tempo de tela de tal ator ou atriz.

Russell Crowe vai bem grande parte da projeção, mas deixa muito a desejar na metade final, quando tem que mostrar um lado sombrio de Noé. Com Jennifer Connelly ocorre o oposto: ela só mostra a que veio na segunda parte, dentro da Arca após o dilúvio, quando já não sabe se é a bondade ou a maldade que está no comando. Emma Watson defende com firmeza sua participação, enquanto Logan Lerman tem o papel mais ingrato do filme. Visualmente, é quase irrepreensível; ótima fotografia de Matthew Libatique, embora os Guardiães de pedra destoam [tanto na presença quanto na filosofia por trás] do tom realista do design de produção.

No trecho final, a fantasia apocalíptica dá lugar a um terror psicológico, que se inicia com os gritos das centenas de pessoas agarradas à arca pelo lado de fora. Como se sente quem está lá dentro? Como é o peso de ser um dos escolhidos numa situação dessas? Questões dramáticas a serem desenvolvidas. Pena Aronofsky se preocupar demais com o ritmo e não se permitir esse tempo. Pelo menos, entrega um desfecho supostamente moderninho nas entrelinhas. O que não é nada mal para uma história que tinha tudo para ser careta nas mãos de outro diretor.

Monteiro Júnior

Péssimo * Desastroso * ½ Fraco * * Assistível * * ½ Sólido * * * Acima da média * * * ½ Ótimo * * * * Quase lá * * * * ½ Excelente * * * * *



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