terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Cine Doroteu - Blue Jasmine

BLUE JASMINE
[Idem, EUA, 2013]
Drama
98 min

Woody Allen realiza um astuto – e tragicômico – estudo de personagem, amparado por uma brilhante Cate Blanchett. Desta vez, ele investe numa comédia dramática para contar a história de uma mulher rica que surta depois do marido ser preso e ela ir à falência. Sua nova condição financeira a leva a São Francisco, para a casa da meia-irmã pobretona feita por Sally Hawkins, a fim de passar um tempo enquanto se adapta, com muita pose e dificuldade, à situação. A estadia, é claro, mexe com a vida de todos ao redor.

A qualidade da narrativa de Allen é notável a ponto de nos fazer esquecer que estamos na [segunda] era do 3D, dos efeitos visuais com CGI, dos espetáculos caríssimos pelos quais o cinema deixou de ser uma ferramenta para contar histórias e virou um fim em si mesmo. O hype é ver ao invés de sentir. Quando nos tornamos tão vazios? Quando esquecemos que, no fundo, tudo deveria girar em torno de uma boa história?


Sem firulas pós-modernas, o sujeito por trás de “Annie Hall” e “Manhattan” [por mim, eu listaria cada filme, inclusive os mais fraquinhos] nos lembra da verdadeira essência da sétima arte. Jasmine, a personagem-título, é uma Fênix ao contrário. Se todos os seus defeitos de caráter terminam por terem charme, é graças à atuação de Blanchett, sem justificar nem estereotipar o tipo que defende. Ela vai da vítima das circunstâncias à alpinista social com uma naturalidade divertida de observar.

E aí reside melhor do cineasta, quando se encontra disposto, essa cínica observação do ser humano tentando retornar ao ponto de equilíbrio, mesmo que seja desajeitadamente. Mesmo com uma protagonista tão interessante, Woody Allen não cai na armadilha de engessar sua câmera nela. O roteiro enxuto dá espaço para a irmã atravessar seu próprio arco dramático, com suas carências amorosas e baixa autoestima.
Nesse sentido, gosto muito de como a britânica Sally Hawkins foi escalada e como sua história não é um mero adereço da narrativa principal.

Atuações femininas extraordinárias, num filme que trafega pelo tempo sem cerimônia para descascar essa cebola chamada Jasmine. Aqui, o humor é dosado, cínico, maduro, surge no momento certo e diz mais sobre nós, espectadores, do que aqueles na tela. Estamos diante de um Woody Allen cruel? Não importa, contanto que esteja em seus melhores dias, ser criticado por ele é um imensurável prazer.

Monteiro Jr.

Trailler oficial:



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