segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Cine Doroteu - O Hobbit: A Desolação de Smaug

O HOBBIT: A DESOLAÇÃO DE SMAUG * * *

[The Hobbit: The Desolation of Smaug, EUA/NZE, 2013]
Aventura
161 min

É difícil imaginar alguém se cansando de visitar a Terra-Média de J. R. R. Tolkien, sobretudo depois dela ter sido tão bem apresentada pelo neozelandês Peter Jackson em sua já clássica adaptação de “O Senhor dos Anéis”. No entanto, quando um livro infantil de 300 páginas é convertido em três filmes com três horas cada, algo sai terrivelmente errado. Não tem como não sair. A indulgência narrativa termina sendo leitmotiv e isso, sim, cansa o belo e dilui a magia.

Digo isso como leitor [quase] contumaz de Tolkien e fã da realização de Jackson em cima do mundo imaginado pelas palavras. Então, estou triste. O dinheiro, como sabemos, é o padrinho da arte, e nessa relação é a afilhada a ser negligenciada. Não posso afirmar que “O Hobbit: A Desolação de Smaug” é um filme ruim. Na verdade, ele é até melhor que “Uma Jornada Inesperada”, primeiro filme dessa nova trilogia forçada. O problema é a sensação de estarmos diante de um produto. Um produto para gerar uma renda inflada. Um produto que toca a superfície da arte apenas como efeito colateral.

Vamos ao produto, então. Com 161 minutos de duração, “A Desolação de Smaug” é um filme recheado de sequências longas com o objetivo de engordar ao máximo a narrativa. Divertidas? Sim. Bem realizadas? Não tenha dúvida. Mas, assim como os vários minutos reservados à guerra de trovões no filme anterior eram apenas três linhas no livro, muitos obstáculos vencidos pela Companhia não trariam prejuízo dramático algum à história caso fossem enxugados ou, quem sabe, cortados.

Mas para Jackson e sua trupe cada vírgula de Tolkien é uma longuíssima pausa para festejar as possibilidades tecnológicas. Isso num filme concebido a 48 frames por segundo que pouquíssimos podem assistir e com um dos usos mais fracos do recurso da moda: o 3D. Com a profundidade de campo quase sempre reduzida, no máximo há um estranhamento entre figura e fundo, assim como o bombardeio de ferro e fogo cuspido sobre nós.

Sim, temos o dragão Smaug, imponente e articulado, sua presença enche a tela e provoca um frio na espinha. Pena que o frio só dure alguns minutos. Com a ação confinada na Montanha Solitária, o máximo que temos de Smaug é, como apontou um amigo, ser feito de besta pelos anões. Ironias à parte, é sintomático do roteiro raso não sabermos a essa altura quem é quem dentre os anões, embora dividir a Companhia por causa de um ferido arrisque dar-nos uma colher de chá. O jeito mesmo é torcer pelo carismático Bilbo de Martin Freeman e lamentar não ter mais cenas com Gandalf. Sir. Ian McKellen rouba todas nas quais aparece.

Assim como em “Uma Jornada Inesperada”, a fraqueza de “A Desolação de Smaug” talvez seja seu trunfo: estar à sombra de “O Senhor dos Anéis” é o que confere magia aos novos filmes, por mais paradoxal que soe. Isso explica a “necessidade” de pôr Legolas na história, a tirar sarro do então bebê Gimli, ou a maior sacada visual ser a pupila do olho em chamas com a forma de Sauron. Ao encerrar de maneira abrupta numa típica frase de efeito pré-climática, joga a Batalha dos Cinco Exércitos e tudo o mais para a conclusão, “Lá e de Volta Outra Vez”, no qual Peter Jackson terá a sua última chance de provar que fazer uma visita a Terra-Média ainda pode ter a magia perdida na nossa própria desolação.

Monteiro Jr.

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